O genótipo e fenótipo da ilustre linhagem dos Brandão portugueses não se encaixa perfeitamente nas características apresentadas pela nossa família. Nossa origem geográfica muito provavelmente encontra-se na Bahia pelo que contavam nossos avós. Pesquisando a história podemos encontrar algumas explicações sobre a nossa origem. A mais aceitável racionalmente é que, com a Abolição da Escravatura, em 1
888, um grupo de escravos pertencentes à propriedade agrícola dos Brandão portugueses na Bahia, passaram a adotar seus nomes seguidos do nome de seu ex-proprietário. Assim passaram a existir o "Manoel dos Brandão", o "Joaquim dos Brandão", a "Maria dos Brandão", que por uma acomodação fonética, tão comum aos costumes afro-brasileiros, passaram a ser o "Manoel Brandão", o "Joaquim Brandão" e a "Maria Brandão", resultando nossa linhagem mestiça, tipicamente brasileira, quer numa mistura das raças originais(português, negro e índio), quer nas raças colonizadoras, como a italiana e a espanhola. O texto abaixo, extraído do livro Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre(Capítulo V-O escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro, páginas 451, 452 e 453 da 35a Edição) corrobora essa hipótese de origem de nossa família. Esses negros batizados e constituídos em família tomavam em geral o nome de família dos senhores brancos: daí muitos Cavalcantis, Albuquerques, Melos, Mouras, Wanderleys, Lins, Carneiros Leões, virgens do sangue ilustre que seus nomes acusam. No Brasil ainda mais do que em Portugal, não há meio mais incerto e precário de identificação de origem social do que o nome de família. Contou-nos senhora de distinta família pernambucana, viúva de um diplomata e historiador eminente, que uma vez, em Londres ou Washington, apareceu como adido militar da delegação brasileira um oficial do Exército com o mesmo nome de família que o dela. Tratava-se de um nome de família ilustre adotado por motivos de pura estética - o oficial achara-o bonito e adotara-o. É o que têm feito também alguns filhos de padre e vários filhos naturais. Muitos sem se contentarem com nomes bonitos ou fidalgos da terra têm ido buscar na história de Portugal e da Espanha nomes de ainda maior ressonância e glória; os mais requintados não se esquecem de um "da" ou "de" que sugira nobreza; Fulano de Alba, Sicrano de Cadaval, Beltrano da Gama. Daí o que o escritor Antônio Torres chamou uma vez a nossa "nobreza de sobrecarta" ou de livro de registro de hotel. No caso dos escravos constituídos cristãmente em família, à sombra das casas-grandes e dos velhos engenhos, terá havido, na adoção de nomes fidalgos, menos vaidade tola que natural influência do patriarcalismo, fazendo os pretos e mulatos, em seu esforço de ascensão social, imitarem os senhores brancos e adotarem-lhe as formas exteriores de superioridade. É, aliás, digno de observar-se que muitas vezes o nome ilustre ou fidalgo dos senhores brancos foi absorvido no indígena e até no africano das propriedades rurais - a terra como que recriando os nomes dos proprietários à sua imagem e semelhança. Foi assim que, em Pernambuco, um ramo da antiga família Cavalcanti de Albuquerque tornou-se Suaçuna; também houve um ramo da família Carneiro Leão que transformou-se em Cedro. Suaçuna e Cedro - nomes de engenho em que se apagaram os europeus ilustres das famílias proprietárias. Logo depois da Independência correu por todo o Brasil grande furor nativista fazendo que muitos senhores mudassem os nomes de família portuguesas para os nomes indígenas das propriedades, às vezes confirmados por títulos de nobreza concedidos pelo Império. Muitos indivíduos de origem européia, e outros de procedência africana, ficaram tendo nomes de família indígenas; pelo que alguns supõem-se caboclos e não de origem predominantemente portuguesa ou africana. Nomes arrogantemente nativistas: Buritis, Muritis, Juremas, Jutaís, Araripes. O depois Visconde de Jequitinhonha, este transformou em Francisco Jê Acaiaba Montezuma o nome portuguesíssimo de Francisco Gomes Brandão. Brasileiros menos indianistas nas suas tendência, porem não menos nativistas - alguns até bairristas - intercalaram no nome um "Brasileiro", um "Pernambucano", um "Paraense", um "Maranhão" enfático, anunciando-lhes a origem brasileira ou particularizando-lhes a regional. Tal o caso do velho José Antônio Gonçalves de Melo que pôs num filho o nome de Cícero Brasileiro, noutro o de Ulisses Pernambuco - nomes que se têm conservado na família, já estando na terceira ou quarta geração. Outro patriarca, da mesma família, do ramo ligado aos Fonseca Galvão, mudou o nome legitimamente português para Carapeba; e com esse nome horrível de Carapeba morreu-lhe heroicamente um filho na Guerra do Paraguai. Este, aliás, recebera do pai, talvez maçom dos ranzinzas, o nome - pode-se dizer cristão? - de Voltaire. Muitos foram os nomes de engenhos que se encostaram aos nomes e às vezes aos apelidos dos donos. Daí os Joaquins de Lavrinha, os Sinhozinhos(Souza Leão) de Almécega, os Orico do Vena(Eurico Chaves, do Vênus), os Sebastiões(Wanderley) do Rosário, os Serafins(Pessoa de Melo) de Matari, os Pedrinhos(Paranhos Ferreira) de Japaranduba, os Zezinhos(Pereira Lima) de Brejo, os Pinheiros de Itapeçoca, os Coelhos Castanhos de Maçaranduva, os Vieiras de Calugi, os Pedros(Wanderley) de Bom-Tom, os Lulus(Pessoa de Melo) de Maré. Quanto aos nomes cristão, parece que por muito tempo pouca diferença houve entre os dos brancos e os dos negros, tirados todos da folhinha. Nomes de santos - predominando o de João - que livrava a casa de menino com esse nome, do diabo vir dançar à porta: e os de Antônio, Pedro, José, nome de santos poderosos que impediam o sétimo filho da família de virar lobisomem. Mesmo sem ter havido diferenciação ostensiva, podem-se considerar certos nomes - Benedito, Bento, Cosme, Damião, Romão, Esperança, Felicidade, Luiza - como caracteristicamente de negros.