16/02/2026
𝐀 𝐂𝐎𝐒𝐌𝐎𝐋𝐎𝐆𝐈𝐀 𝐄𝐆𝐈𝐏𝐂𝐈𝐀: A VISÃO AFRICANA DO UNIVERSO
Não se pode falar de religião sem incluir o antigo Egipto, ou mesmo no comum todo o continente africano, pois tudo que hoje sabemos sobre a religião moderna, têm como grandes influências na cosmologia africano em paralelo a egípcia. Muitos aspectos fundamentados hoje nas religiões modernas como por exemplo o cristianismo, judaísmo ou o islamismo já existiam nas sociedades africanas e principalmente na egípcia antiga. Neste artigo vamos apresentar de forma breve uma visão sobre a cosmologia egípcia
O que é a cosmologia? A palavra “𝐜𝐨𝐬𝐦𝐨𝐥𝐨𝐠𝐢𝐚”significa o estudo do universo como um todo, e de sua forma e natureza como um sistema físico.
Na visão egípcia, o universo era concebido como um vasto oceano primordial chamado 𝐍𝐮𝐧,que representava o caos e a origem de todas as coisas. Dentro desse oceano, surgiram montanhas chamadas 𝐁𝐞𝐧𝐛𝐞𝐧, onde o deus solar 𝐑á, também conhecido como 𝐑á-𝐀𝐭𝐮𝐦, emergiu como uma forma primordial. Rá era considerado o deus criador que trazia ordem e luz ao mundo.
A cosmologia egípcia também incluía a crença em uma divindade feminina chamada 𝐌𝐚𝐚𝐭, que representava a ordem cósmica, a justiça e a verdade.
𝐌𝐚𝐚𝐭 era responsável por manter o equilíbrio e a harmonia no universo. Os egípcios acreditavam que, para garantir a sobrevivência do mundo, eles precisavam seguir os princípios de 𝐌𝐚𝐚𝐭 em suas vidas diárias. O historiador Grego Heródoto (500 BCE) afirmou: “𝑫𝒆 𝒕𝒐𝒅𝒂𝒔 𝒂𝒔 𝒏𝒂çõ𝒆𝒔 𝒅𝒐 𝒎𝒖𝒏𝒅𝒐, 𝒐𝒔 𝑬𝒈í𝒑𝒄𝒊𝒐𝒔 𝒔ã𝒐 𝒐𝒔 𝒎𝒂𝒊𝒔 𝒇𝒆𝒍𝒊𝒛𝒆𝒔, 𝒎𝒂𝒊𝒔 𝒔𝒂𝒖𝒅á𝒗𝒆𝒊𝒔 𝒆 𝒎𝒂𝒊𝒔 𝒓𝒆𝒍𝒊𝒈𝒊𝒐𝒔𝒐𝒔”.
𝑨𝒍𝒈𝒖𝒏𝒔 𝒂𝒔𝒑𝒆𝒄𝒕𝒐𝒔 𝒊𝒎𝒑𝒐𝒓𝒕𝒂𝒏𝒕𝒆𝒔 𝒅𝒂 𝒄𝒐𝒔𝒎𝒐𝒍𝒐𝒈𝒊𝒂 E𝒈í𝒑𝒄𝒊𝒂
𝐃𝐮𝐚𝐥𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐞 𝐞𝐪𝐮𝐢𝐥í𝐛𝐫𝐢𝐨:
Os egípcios acreditavam que o universo era governado por uma dualidade fundamental entre as forças do caos (representadas por Nun) e as forças da ordem (representadas por Rá e Maat). Essas forças opostas precisavam ser equilibradas para manter a harmonia cósmica. 𝐌𝐚𝐚𝐭 era a personificação da ordem cósmica, justiça, verdade e equilíbrio. Os egípcios acreditavam que seguir os princípios de Maat era essencial para a harmonia e a estabilidade do universo.
Ma-at é o netert (deusa), que representa o princípio da ordem cósmica. Este conceito é que não só os homens, mas também a neteru (deuses, deusas) em si foram governados e sem os quais neteru (deuses, deusas) não possuem função.
O excelente condicionamento físico dos Egípcios era devido ao uso e aplicação de realidades metafísicas em sua vida diária em outras palavras sua completa consciência cósmica as cenas de atividades diárias encontradas dentro de túmulos Egípcios, mostram uma forte correlação perpétua entre a terra e o céu. As cenas mostram representações gráficas de todos os tipos de atividades: caça, pesca, agricultura, tribunais de justiça, e de todos os tipos de artes e ofícios.
Ao retratar estas atividades diárias, na presença da neteru (deuses, deusas), ou com o seu auxílio, significava sua correspondência cósmica. Os Egípcios Antigos mais religiosos nunca, dentre as centenas de papiros e em outras escritas de superfícies referiram-se a um ser humano como um “descobridor” ou como um “inventor”.
𝐎 𝐢𝐧𝐢𝐜𝐢𝐨 𝐝𝐚 𝐏𝐫é 𝐂𝐫𝐢𝐚çã𝐨 “𝐍𝐮𝐧” ( 𝐎 𝐧𝐚𝐝𝐚 ):
Cada texto Egípcio sobre a criação começa com a mesma crença básica, de que antes do início das coisas havia um abismo-liquido primitivo em todos os lugares, sem fim e sem limites ou direções. Os Egípcios chamavam este oceano cósmico/caos aquático, 𝐍𝐮/𝐍𝐲/𝐍𝐮𝐧 o estado não polarizado da matéria. A água é desforme, e por si mesma ela não assume qualquer forma, tampouco resiste a ser moldada. Os cientistas concordam com os Egípcios Antigos sobre a descrição da origem do universo como sendo um abismo. Os cientistas se referem a esse abismo como a sopa de 𝐧ê𝐮𝐭𝐫𝐨𝐧𝐬, onde não há nem elétrons nem prótons, somente nêutrons formando um enorme núcleo extremamente denso. Nu / Ny / Nun é o “Ser-Subjetivo”, o símbolo da não formação, indeterminado, energia/matéria indiferenciada, inerte ou inativa, o estado não criado antes da criação; ele em si não pode ser a causa de sua transformação.
Os primeiros textos Egípcios Antigos recuperados há 5.000 anos atrás mostram a crença de que a 𝐏𝐚𝐥𝐚𝐯𝐫𝐚 causou a criação do Mundo. No livro Egípcio chamado O Livro da 𝑹𝒆𝒗𝒆𝒍𝒂çã𝒐 𝒑𝒆𝒍𝒂 𝑳𝒖𝒛 (𝘦𝘳𝘳𝘰𝘯𝘦𝘢𝘮𝘦𝘯𝘵𝘦 𝘦 𝘤𝘰𝘮𝘶𝘮𝘦𝘯𝘵𝘦 𝘵𝘳𝘢𝘥𝘶𝘻𝘪𝘥𝘰 𝘤𝘰𝘮𝘰 𝘖 𝘓𝘪𝘷𝘳𝘰 𝘥𝘰𝘴 𝘔𝘰𝘳𝘵𝘰𝘴), o texto escrito mais antigo do mundo, afirma:
“𝑬𝒖 𝒔𝒐𝒖 𝒐 𝑬𝒕𝒆𝒓𝒏𝒐 … 𝑬𝒖 𝒔𝒐𝒖 𝒂𝒒𝒖𝒆𝒍𝒆 𝒒𝒖𝒆 𝒄𝒓𝒊𝒐𝒖 𝒂 𝑷𝒂𝒍𝒂𝒗𝒓𝒂 … 𝑬𝒖 𝒔𝒐𝒖 𝒂 𝑷𝒂𝒍𝒂𝒗𝒓𝒂" …
Também encontramos no Livro da Vaca Divina (encontrado nos santuários de Tut-Ankh-Amen) que os céus e os seus anfitriões vieram a existir meramente pelo pronunciamento da palavra, e cujo som por si só evoca coisas. Assim que o seu nome é pronunciado, logo as coisas passam a existir A palavra Egípcia ‘𝐧𝐞𝐭𝐞𝐫’ ou natureza, ou ‘netjer’, significa um poder que é capaz de gerar vida e mantê-la depois de gerada.’ Como todas as partes da criação passam pelo ciclo de nascimento-vida-morte-renascimento, assim são conduzidas as energias durante as fases deste ciclo.
𝐀 𝐟𝐨𝐧𝐭𝐞 𝐝𝐞 𝐭𝐮𝐝𝐨:
Os Egípcios antgos acreditavam que o Divino era e é a fonte de toda a sua existência. O Divino é a origem de tudo o que existe e é através das Forças Divinas que o universo foi criado e está sendo mantido. É por isso que todos os aspectos do conhecimento no Egito Antigo são creditados aos atributos/aspectos/qualidades do Divino, ou seja, a neteru (deuses/deusas). No Egito todas as operações das forças que governam e trabalham no céu foram transferidos para a terra abaixo … ele deve sim ser dito que todo o cosmos habita nele [Egito] como em seu santuário …”
Cada ação, não importa quão mundana, era em certo sentido, um ato de correspondência cósmica: lavrar, semear, colher, fabricação de cerveja, o dimensionamento de uma caneca de cerveja, a construção de navios, ao travar-se guerras, jogar os jogos, todos eram vistos como símbolos terrenos para atividades divinas. No Egito, o que hoje chamamos de 𝐫𝐞𝐥𝐢𝐠𝐢ã𝐨, era tão amplamente reconhecida que nem sequer precisava de um nome. Para eles, não se percebia diferenças entre o sagrado e o mundano. Todo o seu conhecimento que era baseado nessa consciência cósmica foi incorporado em suas práticas diárias, as quais se tornaram tradições.
𝐀𝐦𝐞𝐧-𝐑𝐞𝐧𝐞𝐟 ( 𝐎 𝐢𝐧𝐝𝐞𝐭𝐞𝐫𝐦𝐢𝐧𝐚𝐝𝐨)
Os Egípcios antigos reconheciam que nenhum ser humano poderia definir o indefinível, eles acreditavam na presença de uma potência desconhecida e ilimitada, tão majestosa para se comunicar com o universo criado, e que sem esse poder, nenhuma criação pode existir.
Fora do universo e de sua natureza cíclica, é o que os Egípcios Antigos denominavam por ‘Amen-Renef’, o qual não é um nome de qualquer entidade, mas uma sentença que significa, O Que possui Essência Desconhecida. Neste reino do incognoscível, não há palavras, qualquer expressão do pensamento humano poderia ser falada, e os Egípcios profundamente religiosos nunca o fizeram, e só poderia ser transmitida pela negação de todas as qualidades, os Egípcios diriam: Cujo nome é desconhecido por toda neteru (deuses, deusas) É aquele que não tem definição, ou seja, não pode ser definido/descrito por qualquer termo humano.
•𝑨𝒒𝒖𝒆𝒍𝒆 𝒒𝒖𝒆 𝒏ã𝒐 𝒑𝒐𝒔𝒔𝒖𝒊 𝒊𝒎𝒂𝒈𝒆𝒎;
•𝑨𝒒𝒖𝒆𝒍𝒆 𝒒𝒖𝒆 𝒏ã𝒐 𝒕𝒆𝒎 𝒇𝒐𝒓𝒎𝒂.
•𝐀𝐪𝐮𝐞𝐥𝐞 𝐬𝐞𝐦 𝐜𝐨𝐦𝐞ç𝐨 𝐞 𝐬𝐞𝐦 𝐟𝐢𝐦; 𝐞𝐭𝐜, 𝐞𝐭𝐜.
A neteru (deuses, deusas) são as energias/poderes/forças divinas que, através de suas ações e interações, criaram, mantiveram, e continuam a manter o universo. A neteru (deuses, deusas), e suas funções, foram reconhecidas posteriormente por outros como anjos. O Cântico de Moisés no Deuteronômio (32:43), como aquele encontrado em uma caverna em Qumran perto do Mar Morto, menciona a palavra deuses no plural: “𝑨𝒍𝒆𝒈𝒓𝒂𝒊-𝒗𝒐𝒔, Ó 𝒄é𝒖𝒔, 𝒄𝒐𝒎 𝒆𝒍𝒆; 𝒆 𝒇𝒂𝒛𝒆 𝒓𝒆𝒗𝒆𝒓ê𝒏𝒄𝒊𝒂 𝒂 𝒆𝒍𝒆, ó 𝒅𝒆𝒖𝒔𝒆𝒔”.
Quando a passagem é citada no Novo Testamento (Hebreus, 1: 6), palavra deuses é substituído por ‘anjos de Deus’. As esferas de neteru (também conhecidas como anjos e arcanjos no Cristianismo) são hierárquicas entre os níveis/reinos do universo.
Em resumo, a cosmologia egípcia antiga via o universo como uma entidade animada, governada por divindades e sujeita a leis divinas de equilíbrio e ordem. Essa visão de mundo era profundamente enraizada na religião e na mitologia do Antigo Egito, e influenciou muitos aspectos da vida cotidiana e da sociedade egípcia. E hoje a religião moderna detém muitos aspectos da cosmologia egípcia.
S𝐮𝐠𝐞𝐬𝐭õ𝐞𝐬 𝐝𝐞 𝐥𝐞𝐢𝐭𝐮𝐫𝐚:
•𝐌𝐨𝐮𝐬𝐭𝐚𝐟𝐚 𝐆𝐚𝐝𝐚𝐥𝐥𝐚 (𝘈 𝘊𝘰𝘴𝘮𝘰𝘭𝘰𝘨𝘪𝘢 𝘌𝘨í𝘱𝘤𝘪𝘢 𝘖 𝘜𝘯𝘪𝘷𝘦𝘳𝘴𝘰 𝘈𝘯𝘪𝘮𝘢𝘥𝘰)
•The Ancient Egyptian Books of the Afterlife" por Erik Hornung
The Oxford Handbook of Ancient Egyptian Religion" editado por Donald B. Redford
•"The Mind of Egypt: History and Meaning in the Time of the Pharaohs" por Jan Assmann
•The Ancient Egyptian Pyramid Texts" por James P. Allen
•The Mind of Egypt: History and Meaning in the Time of the Pharaohs" por Jan Assmann
Via: Uma Africa Desconhecida
Uma África Desconhecida
𝕳𝖎𝖘𝖙𝖔́𝖗𝖎𝖆 & 𝕱𝖎𝖑𝖔𝖘𝖔𝖋𝖎𝖆 𝕬𝖋𝖗𝖎𝖈𝖆𝖓𝖆