11/03/2026
No dia 8 de março de 2026, tive o prazer de visitar a Mina Central, uma das mais de duas mil minas de extração de ouro existentes em Ouro Preto. Durante a visita, me lembrei de diversas expressões populares brasileiras que têm origem no período da escravidão — um passado marcado por dor, resistência e também pela formação da nossa cultura.
As crianças negras escravizadas começavam a trabalhar nas minas desde muito cedo, por volta dos oito anos de idade, e infelizmente muitas não ultrapassavam os dezesseis anos de vida, vítimas das condições desumanas: calor intenso, falta de ar, poeira, umidade e o contato com metais tóxicos como ferro, fosfato e silício. Estima-se que setecentos mil homens escravizados morreram em decorrência do trabalho nas minas de Ouro Preto.
O trabalho infantil era árduo. Cabia a elas escavar pequenos túneis — ramificações estreitas das galerias principais — e também encher e puxar sacos com o material retirado pelos escravos mais velhos. Dessa realidade surgem expressões que usamos até hoje, como “puxa-saco” e “enche o saco”.
Já o termo “pé de moleque” tem duas origens possíveis: refere-se tanto às crianças que trabalhavam no calçamento das ruas, assentando pequenas pedras, do calçamento conhecido por "pé de moleque", quanto ao costume de adultos que alertavam os pequenos famintos que furtavam comida, dizendo: “Não roube, pede moleque”.
A expressão “profissional de meia-tigela” também vem desse contexto. Quando o escravo não atingia sua meta na extração de ouro, recebia apenas meia tigela de comida. Daí passou-se a dizer que alguém “de meia-tigela” faz seu trabalho de forma insatisfatória.
Já “lavar a égua” vem de uma astúcia comum entre os mineradores. Para fugir do imposto sobre o ouro — o famoso “quinto” — escondiam o pó de ouro na crina da égua, e depois, em local seguro, “lavavam a égua” para recuperar o metal precioso.
Por fim, a expressão “quinto dos infernos” nasceu da revolta popular contra o pesado imposto do quinto do ouro cobrado pela Coroa Portuguesa.
Visitar a Mina Central foi, portanto, uma experiência que me fez refletir sobre o peso histórico de nossas palavras e o quanto elas carregam da história de um povo que, mesmo em meio ao sofrimento, deixou marcas profundas na nossa língua e identidade.
Antônio Márcio Silveira