17/02/2026
INTERESSANTE!
Pesquisas realizadas em regiões de Cerrado e Caatinga, incluindo áreas do norte de Minas Gerais, mostram que populações de macacos-prego (Sapajus libidinosus) utilizam pedras de forma sistemática para quebrar frutos duros e sementes. Ao bater uma pedra contra outra para acessar o alimento, esses animais acabam produzindo lascas com bordas cortantes, semelhantes às encontradas em alguns dos mais antigos sítios arqueológicos associados aos primeiros ancestrais humanos.
Estudos experimentais publicados por equipes internacionais, como os liderados pelo arqueólogo Tomos Proffitt em 2016, demonstraram que as fraturas geradas pelos macacos possuem características físicas muito parecidas com ferramentas de pedra datadas de cerca de 3,3 milhões de anos. Isso não significa que os primatas estejam evoluindo como humanos, mas indica que certos vestígios arqueológicos podem surgir a partir de comportamentos simples de percussão, sem planejamento tecnológico.
Pesquisadores também identificaram que esses macacos mantêm locais tradicionais de quebra de alimentos, reutilizados por gerações, onde se acumulam pedras desgastadas e fragmentos. Esse tipo de registro material deu origem a uma área de estudo chamada arqueologia primata, que analisa como animais atuais modificam o ambiente para compreender melhor os primeiros passos da tecnologia na evolução humana.
A principal diferença em relação aos hominíneos é que os macacos não fabricam ferramentas de maneira intencional nem desenvolvem técnicas progressivamente mais complexas. Entre os ancestrais humanos houve escolha deliberada de materiais, repetição padronizada de gestos e transmissão cultural acumulativa, elementos que levaram ao surgimento de uma verdadeira tradição tecnológica.
Essas descobertas mostram que a base do uso de ferramentas não é exclusiva da espécie humana. Ela pode emergir de capacidades cognitivas compartilhadas por outros primatas, enquanto a singularidade humana estaria no desenvolvimento cultural que transformou ações ocasionais em tecnologia contínua ao longo de milhões de anos.