08/03/2020
Lorena, 8 de março de 2020
“Nosso tempo é agora”
Quando fiz 9 anos, meus pais se separaram. Fugindo à tradição, fui morar com meu pai. Nosso ‘pãe’ desdobrou-se em trabalhar e cuidar da gente: meu irmão e eu. Ele não se intimidou em assumir as chamadas funções femininas: passava minha saia de pregas com uma destreza impressionante, cozinhava o melhor mingau de todos os tempos. Quando menstruei, me mandou flores. É desse lugar de delicadeza e possibilidades mais amplas de ser humano que estabeleci a minha visão sobre o mundo. Um lugar de liberdade. Um lugar de amor, respeito e de cuidado mútuo.
Quando penso em empoderamento feminino, me pergunto quais mudanças nós, mulheres e homens, precisamos fazer para que a igualdade vire normalidade: permitir que mulheres decidam sobre a própria vida, que homens dividam cuidados familiares e sejam solidários com as mulheres na garantia de direitos.
O empoderamento das mulheres, assim mesmo no plural, tem nos levado a novos lugares e nos fortalecido. Na internet, mulheres transformaram sites, blogs e redes sociais em espaços seguros para afirmar identidades. Ajudaram a criar consciência coletiva, formar alianças e amplif**ar vozes. O que falta para virar a chave?
A grande virada a favor da igualdade de gênero precisa de velocidade em ações concretas, com foco nos direitos das mulheres.
Precisamos canalizar essa energia criativa que nos anima e nos une. Precisamos aumentar a representatividade política, ocupar mais e melhores espaços na comunicação, valorizar empresas com equidade salarial, garantir saúde, direitos se***is e reprodutivos, obter o respeito a territórios, reconhecer a diversidade das brasileiras como elemento positivo de um país que precisa eliminar desigualdades. Disso tudo depende a nossa dignidade. Disso tudo depende o fim de sacrifícios de gerações de mulheres.
Comecei escrevendo sobre meu pai porque ele foi minha primeira referência masculina. Ele, com seu amor e respeito pelas mulheres, me deu passaporte para amar a mim mesma, aos homens e às mulheres.
Quem é você que lê este texto? Já viveu algum tipo de violência? Teve dificuldade em ascender na profissão? Tem tempo para si mesma?
É tempo de despertar nossos sonhos, desejos. Enfrentar nossas dores e curá-las.
Camila Pitanga, Embaixadora Nacional da ONU Mulheres no Brasil