10/06/2018
A cebola esta geada
cerrada e pobre:
geada dos teus dias
e das minhas noites.
Fome e cebola,
gelo preto e geada
grande e redonda.
2
No berço da fome
meu filho estava.
Com sangue de cebola
se amamentava.
Embora teu sangue,
encharcado de açúcar,
cebola e fome.
3
Uma mulher morena
que se fez lua
se derrama fio a fio
sobre o berço.
Ri-te, filho,
que tu engulas a lua,
quando for preciso.
4
Cotovia da minha casa,
ri-te muito.
É teu riso nos olhos
a luz do mundo.
Ri-te tanto
que a alma, ao te ouvir,
vença o espaço.
5
Teu riso me liberta,
me dá asas.
Das solidões me tira,
da prisão me arranca.
Boca que voa,
coração que em teus lábios
ralampaguea.
6
É o teu riso a espada
mais vitoriosa,
vencedor das flores
e das cotovias.
Rival do sol.
Porvir dos meus ossos
e do meu amor.
7
Carne esvoaçante,
súbito a pálpebra,
e o filho como nunca
colorido.
Quanto pintassilgo
se remonta, esvoaça,
do teu corpo!
8
Despertei da infância:
nunca despertes.
Triste é minha boca.
Ri-te sempre.
Sempre no berço,
defendendo o riso,
pluma por pluma.
9
Ser de voo tão alto,
tão extendido,
que tua carne parece
um céu cernido.
Se eu pudesse
regressar à origem
de tua carreira!
10
No oitavo mês ris
com cinco flores,
com cinco diminutas
ferocidades.
Com cinco dentes
como cinco jasmins
adolescentes.
11
Fronteira dos beijos
será amanhã,
quando na dentadura
sintas uma arma.
Sintas um fogo
correr dentes abaixo
cravando o centro.
12
Voa filho na dobrada
lua do peito;
ele, triste de cebola,
tu, satisfeito.
Não te abatas.
Não sabes o que se passa
nem o que ocorre.
*
Nanas de la cebolla
Miguel Hernández
Fonte :GGN
Foto: Marly Rodrigues