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A cebola esta geadacerrada e pobre:geada dos teus diase das minhas noites.Fome e cebola,gelo preto e geadagrande e redon...
10/06/2018

A cebola esta geada

cerrada e pobre:

geada dos teus dias

e das minhas noites.

Fome e cebola,

gelo preto e geada

grande e redonda.



2

No berço da fome

meu filho estava.

Com sangue de cebola

se amamentava.

Embora teu sangue,

encharcado de açúcar,

cebola e fome.



3

Uma mulher morena

que se fez lua

se derrama fio a fio

sobre o berço.

Ri-te, filho,

que tu engulas a lua,

quando for preciso.



4

Cotovia da minha casa,

ri-te muito.

É teu riso nos olhos

a luz do mundo.

Ri-te tanto

que a alma, ao te ouvir,

vença o espaço.



5

Teu riso me liberta,

me dá asas.

Das solidões me tira,

da prisão me arranca.

Boca que voa,

coração que em teus lábios

ralampaguea.



6

É o teu riso a espada

mais vitoriosa,

vencedor das flores

e das cotovias.

Rival do sol.

Porvir dos meus ossos

e do meu amor.



7

Carne esvoaçante,

súbito a pálpebra,

e o filho como nunca

colorido.

Quanto pintassilgo

se remonta, esvoaça,

do teu corpo!



8

Despertei da infância:

nunca despertes.

Triste é minha boca.

Ri-te sempre.

Sempre no berço,

defendendo o riso,

pluma por pluma.



9

Ser de voo tão alto,

tão extendido,

que tua carne parece

um céu cernido.

Se eu pudesse

regressar à origem

de tua carreira!



10

No oitavo mês ris

com cinco flores,

com cinco diminutas

ferocidades.

Com cinco dentes

como cinco jasmins

adolescentes.



11

Fronteira dos beijos

será amanhã,

quando na dentadura

sintas uma arma.

Sintas um fogo

correr dentes abaixo

cravando o centro.



12

Voa filho na dobrada

lua do peito;

ele, triste de cebola,

tu, satisfeito.

Não te abatas.

Não sabes o que se passa

nem o que ocorre.

*

Nanas de la cebolla

Miguel Hernández
Fonte :GGN
Foto: Marly Rodrigues

EnciclopédiaHácate ou Hécata, em gr. Hekáté. Mit. gr.Divindade lunar e marinha, de trípliceforma (muitas vezes com três ...
30/05/2018

Enciclopédia
Hácate ou Hécata, em gr. Hekáté. Mit. gr.
Divindade lunar e marinha, de tríplice
forma (muitas vezes com três cabeças e
três corpos). Era uma deusa órfica,
parece que originária da Trácia. Enviava
aos homens os terrores noturnos, os fantasmas
e os espectros. Os romanos a veneravam

como deusa da magia infernal.
– Ana Cristina Cesar, em “Poética”.
Foto: Marly Jacklliny Rodrigues

Poema em linha retaNunca conheci quem tivesse levado porrada.Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.E eu, ta...
29/05/2018

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

Fonte: Brasil Escola

Vampiro brasileiro...Nem horror,nem comédia...ou eu estou ficando louco?ou é apenas uma comédia de horror!?Um estranho s...
27/05/2018

Vampiro brasileiro...
Nem horror,
nem comédia...
ou eu estou ficando louco?
ou é apenas
uma comédia de horror!?
Um estranho sonho?
Amanhã, quem sabe,
aquele amigo coxinha -
quando eu acordar
desse pesadelo -
me diga:
Eu não penso nada disso,
estava só brincando!

Francisco Alves Filho
Foto : Cláudio Chueiri
P**a.

“Viverei” (Ana Cañas)Mesmo que me falte o arNão me calareiMesmo que tirem o chãoEm pé ainda estareiA luta é coração que ...
22/05/2018

“Viverei” (Ana Cañas)

Mesmo que me falte o ar
Não me calarei
Mesmo que tirem o chão
Em pé ainda estarei

A luta é coração que sangra
Bate forte a esperança
De um povo que quer o seu direito
Todo respeito
E eu só lhe tenho amor

Podem me julgar além da lei
Podem me prender, eu andarei
Podem inventar o que nem sei
Podem me matar, eu viverei

A igualdade é uma ideia
Que nunca se aprisiona
Tem a veia aberta
Da gente que sonha
A liberdade é a glória
Da nossa imensa voz
Guarda na memória
É a história
Eles e nós

IdentidadePreciso ser um outro para ser eu mesmo Sou grão de rocha Sou o vento que a desgasta Sou pólen sem insecto Sou ...
19/05/2018

Identidade
Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o s**o das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Fonte : Citador
Foto : Cláudio Chueiri

Salamargo é o pão de cada dia;pão de suor, amargonia.Amargura por viver nesta agonia,salamargando a tirania.Salamargo é ...
09/05/2018

Salamargo é o pão de cada dia;
pão de suor, amargonia.
Amargura por viver nesta agonia,
salamargando a tirania.

Salamargo é o tirano, segundo a segundo
amargo sal que salga o mundo.
Assassino das manhãs, carrasco das tardes,
ladrão de todas as noites
e de seu mistério profundo;
carcereiro de seu irmão, a transmudar
a fantasia em noite de alcatrão.

Amaro é fado de nascer escravo,
amargonauta em mar de sal,
nesta salsa-ardente irreal em que cravo
unha e dentes, buscando viver
como um bravo entre decadentes.

Salamargo, tão amargo quanto
o mais amargo sal, é comer
o pão de cada dia sob o tacão
da tirania. Um pão amargo,
sem sal, pobre de amor e fantasia.

Salamargo existir sem poesia.

Eduardo Alves da Costa
Fonte: Antônio Miranda
Foto: Cláudio Chueiri

“Na primeira noite eles se aproximame roubam uma flordo nosso jardim.E não dizemos nada.Na segunda noite, já não se esco...
05/05/2018

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”

Eduardo Alves da Costa.
Fonte: Zona Curva
Foto: Cláudio Chueiri

Era ele que erguia casas Onde antes só havia chão. Como um pássaro sem asas Ele subia com as casas Que lhe brotavam da m...
01/05/2018

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
Vinícius de Moraes

🇧🇷️🤔✊
12/04/2018

🇧🇷️🤔✊

25 aprile 2016 Flash mob in metropolitana per cantare Bella Ciao in difesa degli equilibri costituzionali

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Nísia Floresta, RN
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