03/08/2024
UMA "MÃE" ESQUECIDA
Degradada, coberta por pichações e pouco notada num cantinho perto do fim da Rua Almirante Alexandrino, no alto de Santa Teresa, esta pequena construção já teve importância vital para o Rio de Janeiro. Trata-se da Mãe D’Água, caixa da passagem que ligava o Rio Carioca à canalização que levava suas águas até o Aqueduto da Carioca — os nossos Arcos da Lapa —, para posterior distribuição pelos chafarizes públicos espalhados pela cidade. Só isso, já seria suficiente para incluir a Mãe D´Água como importante patrimônio histórico. A caixa, que tem quase 300 anos, está ligada às nossas raízes, portanto. Uma espécie de “mãe” do Rio de Janeiro, hoje quase esquecida.
Abastecimento de água era um problema, no Rio colonial. A cidade tinha muitas lagoas, mas quase todas de águas salobras, impróprias para consumo. Então, era preciso vir até aqui, onde o Rio Carioca descia em direção ao núcleo urbano, para buscar água limpa — ou então, comprá-la dos aguadeiros, que eram indígenas ou negros escravizados que vendiam o produto em enormes tonéis que carregavam pelas ruas. Contudo, à medida que a cidade começou a ganhar importância como porto de escoamento de riquezas extraídas das Minas Gerais, no século 18, o aumento da população reclamava melhores condições de vida.
Foi na longa gestão do governador Gomes Freire de Andrade, o Conde de Bobadela (1733-1763), que a primeira estrutura de distribuição grande porte foi montada. Além da reconstrução do aqueduto, instalou-se a canalização do Carioca, que aqui ainda corre a céu aberto até hoje. A Caixa da Mãe D’Água — que tem este nome como referência à matriz do rio que abastecia a cidade e também à crença indígena em forças espirituais que habitavam as fontes — tem dentro de si um pequeno reservatório, de onde a água era direcionada aos dutos. Na lateral do monumento, com a leitura dificultada pelas pichações, há uma cartela onde se veem o nome de Gomes Freire e do rei de Portugal, D.João V, e a data de sua construção: o longínquo ano de 1744.