02/06/2026
Eu era criança lá nos anos 70.
E desde criança gostei de casas.
Do interior delas, de seus móveis, enfeites e arrumação.
Decoração, se dizia a época.
Eu observava a casa dos amigos, dos tios, dos avós.
Lembro até hoje de algumas que me chamaram a atenção.
O apartamento de um amigo de escola nos jardins; moderno, sofá em "L" branco, espelhos e aço, um bar num canto.
O bonito sobrado neocolonial cor de rosa dos Trussard no Alto de Pinheiros - onde fui em uma festa - recheado de objetos de arte, tapeçarias e porta-retratos.
O apartamento de uma amiga querida com os móveis todos mandados fazer em estilo colonial mexicano.
E era assim: uma boa decoração seguia um estilo rígido, moderno, colonial brasileiro, Luis XIV, XV, ou XVI...
Tudo combinando, tudo de acordo.
E a vida era assim também.
Rígida.
Cada um com um papel definido.
Casamentos para sempre, homens provedores, mulheres dependentes.
Profissões a escolher também havia poucas:
Médico, dentista, veterinário, advogado, engenheiro ou arquiteto.
Em segredo, eu sonhava em ser decorador.
Não podia.
Profissão menor.
Coisa de mulher.
Ou pior, de...
Parece mentira, né?
Pois é verdade.
E ia eu acumulando segredos, escondendo desejos.
Foi aos poucos que o mundo foi mudando.
Uma conquista aqui, um respeito ali.
Fomos descobrindo, por vezes encantados, por vezes espantados, que existem muitas e muitas formas de viver, de existir.
A vida venceu.
Mostrou-se fluida.
Provou que não há definições, certezas.
E eu?
Eu descobri a beleza da cortininha de estreitas fitas de plástico colorido que separava a sala da cozinha, na casa do caseiro da nossa chacara.
O lindo desbotar da cor nas paredes caiadas.
A beleza da imperfeição.
A libertação de se descobrir impotente.
Aos poucos - como boa parte do mundo - fui aceitando o diferente no outro, e em mim.
Perdi um pouco, ganhei muito.
Vivo na verdade, de verdade.
Muito a agradecer.
Um beijo da gente daqui pra vcs daí!❤