29/05/2017
Passar um final de semana na Ilha da Gigoia !
Rotina de cidade do interior atrai moradores e visitantes a ilhas da Lagoa da Tijuca
Tranquilidade de ruas onde não passam carros, boas casas e restaurantes são atrações do local
Todos os dias, Sebastião Pacheco acorda, toma seu café da manhã e caminha cerca de 50 metros até o Bar do Galego. Lá, encontra-se com os amigos para bater papo e jogar cartas. Na hora do almoço, percorre o caminho de volta para casa. Depois da sesta, retorna ao Bar do Galego para continuar o papo até a hora do jantar .
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A rotina poderia ser a de um aposentado que vive pacatamente numa pequena cidade do interior. Pacheco, no entanto, mora num aconchegante recanto no coração da Barra, a Ilha da Gigoia. Depois de se aposentar, há seis anos, ele trocou o apartamento no Leblon por uma casa no local.
— Minha esposa e eu tínhamos vontade de morar numa casa, mas ficávamos com medo, por causa da violência no Rio. Meu filho Flávio namorava uma menina que morava na Gigoia e nos trouxe para ver um terreno à venda. Compramos e construímos nossa nova residência — conta ele.
A mesma tranquilidade que conquistou Pacheco atrai os moradores das dez ilhas que compõem o pequeno arquipélago da Lagoa da Tijuca, onde casas luxuosas dividem espaço com moradias simples, em perfeita harmonia.
Duas ilhas são ocupadas pelo Marina Barra Clube. Em outra, a Ilha dos Pescadores, funciona a casa noturna homônima, e, numa quarta, a Ilha da Fantasia, há uma loja maçônica. Quatro delas (Pesquisa, das Garças, do Ipê e São Jorge) são ocupadas quase exclusivamente por casas e carecem de infraestrutura. As ilhas da Gigoia e Primeira, embora essencialmente residenciais, são mais urbanizadas.
Com mais bares, mercados e restaurantes, a Gigoia é a de maior população: tem cerca de três mil moradores. Mesmo separada da Avenida Armando Lombardi por poucos metros, dá ao visitante a sensação de que saiu do Rio.
Nas ruas não circulam carros, e o clima é de total tranquilidade. Não há nenhum patrulhamento da polícia e, mesmo assim, o índice de violência é quase zero, segundo os habitantes.
No Bar do Galego, que f**a na Alameda Dalton Barreto, encontra-se todo tipo de informação sobre a Gigoia. Basta perguntar a quem estiver por lá. Galego, o dono do estabelecimento é a memória viva da ilha.
— Moro aqui há 45 anos e o bar é da minha família há 22 — conta o comerciante.
Ali vive-se bem, mas problemas existem, claro. Os serviços públicos nem sempre funcionam como deveriam. Não há rede de esgoto, e as casas usam sumidouros ou fossas. Entre os moradores, o único elogio é para a Comlurb, que, de barco, faz a coleta de lixo.
— Quando estoura um cano de água aqui na Gigoia, por exemplo, os moradores fazem uma vaquinha para consertar, porque a Cedae não vem fazer o reparo. Todos os postes para instalação da rede elétrica também fomos nós que construímos — conta Sebastião Pacheco.
Entre o Golf Club e os Jacarés
A Ilha Primeira é a maior da Lagoa da Tijuca depois da Gigoia. Menos extensa territorialmente e com menos infraestrutura, ela tem como vizinhos o Itanhangá Golf Club e o Canal dos Jacarés, onde é possível encontrar facilmente dezenas de espécimes destes répteis nadando.
Também aconchegante, a ilha conquistou moradores como o ator Flávio Bauraqui, que acaba de viver no cinema o pai de João de Santo Cristo, no filme “Faroeste caboclo”.
Apaixonado pelo arquipélago, há um ano ele precisou devolver a casa que alugou por sete anos na Ilha da Gigoia e não pensou duas vezes: ao procurar outra, na mesma região, decidiu que seu novo lar seria na Ilha Primeira.
— Vim pela primeira vez para uma festa, na casa de uma amiga, e me apaixonei por este lugar. É como se fosse uma cidade do interior mesmo — afirma ele.
Entre as ilhas da Gigoia e Primeira, Bauraqui diz não ter preferências, mas acha a da sua atual residência mais calma:
— Gosto do fato de os bares e restaurantes badalados ainda não terem chegado aqui. Assim, ela se mantém mais residencial.
A tranquilidade e a sensação de segurança também foram os atrativos para Thiago Frasão. Há oito anos, ele e a mãe trocaram uma casa no Itanhangá por outra na Gigoia. Cinco anos depois, mudaram-se para a Primeira.
— Nossa casa no Itanhangá foi assaltada. Ficamos com medo, mas não queríamos nos mudar para um apartamento. As ilhas foram a solução perfeita — conta Frasão.
Com ruas mais padronizadas, melhor calçamento e casas de padrão mais alto, a Ilha Primeira sofre menos com a ocupação desordenada do que a Gigoia, até por sua limitação de espaço. Para Frasão, esta é uma de suas principais vantagens.
— Muitos terrenos grandes da Gigoia, onde havia casarões, foram particionados e vendidos como lotes. Isso criou um crescimento desorganizado, o que não acontece aqui — diz ele.
No balanço do barco ou da chalana
Um dos fatores que contribuem para que as ilhas da Lagoa da Tijuca mantenham o ar bucólico, segundo os moradores, é a manutenção do transporte aquaviário como única forma de acesso. Para quem não tem barco, a opção é pegar uma das simpáticas chalanas. A embarcação de baixo calado é ideal para se navegar pelos canais rasos e mangues da região.
Na estação da Armando Lombardi, ao lado do Barra Point, pode-se pegar chalanas para todas as ilhas. O transporte é controlado por associações de barqueiros e não depende do poder público. O valor da passagem varia. A travessia entre o continente e a Ilha da Gigoia custa R$ 0,80. Da Gigoia para a Primeira, são R$ 0,70. Entre 6h e 22h, há barcas para a Gigoia a cada quatro minutos. De madrugada, o intervalo é de 20 minutos.
Se por um lado as chalanas ajudam a preservar o ambiente sossegado, por outro, o crescimento da região da Barra atrai visitantes e garante mais renda aos comerciantes. O contraste entre a manutenção do estilo interiorano e o progresso é um dilema por que passam os moradores.
— A comunidade não quer perder sua identidade, mas, ao mesmo tempo, o metrô vai sair na nossa porta. Também queremos estar prontos para aproveitar as oportunidades que isso nos trará — diz Fernando de Freitas, presidente da Associação de Moradores da Ilha da Gigoia.
Freitas, que abriu recentemente um bar, é um dos moradores que investem na Gigoia, atualmente muito procurada na hora do almoço por quem trabalha em empresas próximas.
Além de bares e restaurantes, a Ilha da Gigoia já oferece hospedagem. A Pousada Barra da Tijuca é uma opção. Ela foi construída há nove meses por Sebastião Pacheco, e é administrada por seus filhos Flávio e Fernando. Logo ao lado, está a Pousada da Gigoia e, bem em frente, a Pousadinha da Barra da Tijuca.
Para quem quer aproveitar o clima bucólico da região, as ilhas Primeira e da Gigoia oferecem boas opções de restaurantes e bares. O GLOBO-Barra selecionou cinco das mais conhecidas.
RESTAURANTE CAPRICCIO
Alameda das Mangueiras 13, Ilha da Gigoia. A casa funciona às segundas e terças, do meio-dia às 15h; de quarta a sábado, do meio-dia à meia-noite; e, domingo, do meio-dia às 21h. Telefone: 2491-0142.
BAR DO CÍCERO
Marina das Estrelas 1, Ilha Primeira. Segunda, das 11h às 22h; e, de terça a domingo, das 11h à meia-noite. Telefone: 2493-8053.
PIZZARIA ALLA PERGOLA
Ilha da Gigoia 11. Funcionamento de quarta a domingo, das 18h à meia-noite; e, sexta e sábado, das 18h à 1h. Telefone: 3139-3090.
RESTAURANTE LAGUNA
Ilha da Gigoia 34. Quinta e sexta, das 18h à meia-noite; sábado, das 13h à meia-noite; e, domingo, das 13h às 18h. Telefone: 2495-1229.
BAR DO GALEGO
Alameda Dalton Barreto 49, Ilha da Gigoia. O bar abre às 7h e, segundo a administração, funciona até o último cliente. Telefone: 2495-5190.