03/08/2024
Como se iniciou esta aventura...
Esta aventura inicia-se em plena pandemia de covid-19, o Hostel encontrava-se encerrado pela força das circunstâncias, e decidimos aproveitar para realizar uma intervenção com o objectivo de procurar e eliminar a origem da praga cronica de baratas, e de difícil controlo, que existia no piso térreo do edifício onde até à presente data laborava o Beja Hostel.
Eram realizadas aproximadamente cinco desinfestações por ano e as baratas persistiam em aparecer em grande quantidade.
Assim realizamos uma intervenção seguindo um buraco por onde saiam a maioria dos indesejados animais, rapidamente batemos com uma cisterna com 3 m de profundidade e aproximadamente 4 m2 de área, perfeitamente funcional, seguidamente encontrámos a primeira talha enterrada e uma fossa séptica. Esta fossa séptica, com muitos anos de utilização, encontra-se no centro do edifício, no piso térreo como é obvio, e estava em pleno funcionamento recebendo os dejectos de todo o edifício.
Detectada também uma ruptura grave das canalizações de esgotos que se encontravam partidas e que vazavam para dentro dessa mesma fossa séptica, contaminando todo o solo envolvente. Foi ai, nessa fossa que se criou o habitat favorável para a procriação de milhares de baratas e outras pragas que conviviam nesse ambiente repugnante.
Detectado o grave problema na rede de esgotos interna do Hostel e tendo deparado com as referidas estruturas, rapidamente contactamos a Direcção Regional de Cultura e enviamos informação para o município de Beja a comunicar a devida intervenção e a solicitar licenciamento. Em resposta, o Município informou que o pedido solicitado era indeferido porque carecia de parecer vinculativo da Direcção Regional de Cultura do Alentejo.
Como já nos tínhamos adiantado e comunicado á DRC Alentejo, tendo a responsável técnica dessa entidade para a região também já visitado pessoalmente a intervenção e constatado no local o caracter urgente de se realizar tal intervenção, foi rápida a obtenção desse parecer da referida entidade publica.
Passados poucos dias do indeferimento do licenciamento da obra por parte do município tínhamos o parecer da DRC Alentejo, onde autorizava os trabalhos desde que devidamente acompanhados por técnicos competentes, nomeadamente arqueólogos credenciados. Seguidamente contratou-se uma empresa de arqueologia, pediu-se as devidas autorizações para se realizar a intervenção ao legitimo proprietário do prédio, tratou-se da documentação oficial junto de DRC Alentejo e procedeu-se ao envio da informação para os serviços municipais competentes, e mais nada nos veio a ser exigido pelos mesmos, mas para onde sempre enviamos toda a documentação decorrida dos trabalhos, nomeadamente notas técnicas, pareceres e levantamento arquitectónico de todo o edifício, incluindo coberturas.
Na continuação dos trabalhos para limpeza da fossa séptica e descontaminação das terras constatamos que toda a estrutura de esgotos no piso térreo se encontrava comprometida, partida, rachada, e em alguns casos, com faltas de troços de ligação, descarregando simplesmente para o solo. Foi de tal forma que saíram milhares de quilos de terras contaminadas com as descargas dos esgotos de uma unidade deste género, durante anos contínuos, um trabalho Herculeano, todo realizado manualmente e que demorou meses.
Nessa retirada de terras contaminadas, de salientar que encontramos uma estrutura, parede, de grandes dimensões, um sistema de distribuição de agua com um grande deposito, muito bem conservado, uma mina subterrânea de agua, intacta, e um canal menor que sai do tanque maior, tudo datado da época Romana, aqui temos um pequeno pedaço, muito bem conservado, da forma como era distribuída a agua na antiga cidade de Pax Julia.
Também encontramos muitos artefactos islâmicos e mais uma talha datada de 1838, o que comprova a ocupação continua deste espaço por varias civilizações que ocuparam a cidade e a região.
Tudo aponta para que estas estruturas sejam parte do enorme edifício das Termas da Pax Julia, uma importante estrutura da vida quotidiana da sociedade Romana e muito provavelmente utilizadas durante o período Islâmico.