18/03/2024
||| Exposição “Bicho na Mesa” – de Fernando Varanda. Galeria Monumental, Lisboa.
Decorre até ao próximo sábado 23-3, a exposição de pintura, objetos e desenhos da autoria de Fernando Varanda (1941-2023). O arquiteto do lugar, como o apelidei no encontro realizado por iniciativa de suas filhas, Paula e Teresa, e que reuniu uma roda de amigos e colegas na Galeria Monumental para celebrar e recordar o amigo, o humanista, o artista e o arquiteto. Partilho algumas imagens do evento e também o breve texto de tributo a uma amizade especial.
Fernando Varanda, arquiteto do lugar.
Mais do que um colega de profissão, Fernando Varanda foi um amigo e um companheiro de viagem pelos imaginários do habitar, das atmosferas e das paisagens do ancestral.
De sensibilidade apurada, ele soube encontrar na essência do singelo a resposta para a felicidade do aconchego da casa e da comensalidade mediterrânica. Um génio que nos é próximo, mas também distante, dada a dicotomia dos dois mares que nos moldam o carácter.
Da América ao Oriente médio, do Alengarve ao Oeste atlântico, Varandas, como carinhosamente o seu Alentejo o conheceu, trouxe para esse interior rural o saber e a cultura do ancião e do Saná, o espaço refúgio, o pátio, a alcova, a açoteia como cômodo e o mafraj do ritual do conviver, uma consciência que o ser moderno e seu habitar já alienou.
Persona grata e merecedora de gratidão por toda a experiência que fez irradiar nas vivências de outros - como a luz que desce do zénite aos quartos interiores, a praça fresca onde as crianças brincam junto à repartição, os telhados jardim que pasmam os passantes, os degraus banco que dão jeito às visitas, os artefactos multiculturais que contam as histórias, a arte que nos motiva e a música de fundo que nos enche a alma, tudo isto lhe devemos e não lhe soubemos retribuir.
Em cada um de nós há um Varandas, de muitas formas e atos. A toda a vez me recordo da sua irreverência e também da sua generosidade e grandeza, que de pequeno se fazia ao perguntar-me se eu sabia…
Da sua parte guardo histórias de serões de conversa, de beberes e de comeres criativos, de fados e de desfados, de críticas e de perspetivas, autênticos tratados de teoria que para pragmáticos destoariam.
Meu querido amigo Varandas, foram factos pandémicos e suas sequelas que nos separam. Tanto que ainda tínhamos para aprender… e eu, daqui te envio está simples prosa como agradecimento…
16.03.2024 Rui Carvalho