18/10/2026
Esse mapa é dos anos 1990 e contém vários erros. Setúbal por exemplo era شطوبر | Šaṭūbar, uma arabização de Caetobriga. Alcabideche era القبداق | al-Qabḏāq,, uma arabização de caput aquæ. Moura teve várias designações, por exemplo مدينة لقنت | Madīna Laqant, حصن مورة | Ḥiṣn Mawra/Mūra, مورة | Mawra/Mūra, المنيجة | al-Manīǧah, segundo fontes Cristãs. Moura era لقنت | Laqant. Mértola teve igualmente várias grafias مارتلة | Mārtula, ميرتلة | Mīrtula, مرتلة | Martula. Loulé era conhecida como العليا | al-ʿUlyā, “a mais alta”, المدينة العليا | al-Madīna al-ʿUlyā e العريانة | Al-ʿUryāna. Almodôvar vem de المدور | al-Mudawwar, “o redondo”. Cacela era قسطلة | Qasṭala, قسطلة الغرب | Qasṭalat al-Gharb, قسطلة دراج | Qasṭalat Darrāǧ.
Marachique [Castro de Cola]: حصن مرجيق | Ḥiṣn Murǧīq e قلعة مرجيق | Qalʿa Murǧīq
Ossónoba ou Ocsonoba: a fonética e a estrutura deste topónimo pré-Islâmico parecem ter colocado dificuldades à sua adaptação ao Árabe. No legado das fontes árabes escritas encontramos várias grafias, algumas estranhas e bastante divergentes entre si: أكشونبة | Ukšūnuba; أقشانبا | Aqšānba; أكشونيبا | Akšūniba; أكشونية | Akšūnīah; إقليم أكشونية | Iqlīm Akšūnīah; كورة أكشونبة | Kūra Ukšūnuba.
A diversidade destas formas revela a dificuldade de representar e transmitir em Árabe um topónimo de origem pré-Islâmica cuja estrutura fonética já não era transparente para os autores Árabes. Entre as formas conservadas nas fontes, Akšūnīah parece ser uma das grafias mais frequentes para representar o antigo topónimo Ocsonoba/Ossónoba.
É particularmente interessante observar a alternância entre Ukšūnuba, Aqšānba, Akšūniba e Akšūnīah, que mostra diferentes tentativas de aproximar a sequência consonântica e vocálica do topónimo às estruturas fonéticas e morfológicas do Árabe. A forma Akšūnīah, por sua vez, parece ter adquirido uma morfologia mais familiar aos autores árabes, através da terminação ـية | -īya(h).
Faro: registado nas fontes Árabes como شنت مارية | Šant Marīya, Šant Māriya, Šantamarīyya; شنتمرية الغرب | Šantmāriyat al-Gharb; شنت مارية الغرب | Šant Marīya al-Gharb; شنت مارية الهارون | Šant Marīya al-Ḥārūn; شنت مارية الفرعون | Šant Marīya al-Farʿūn. Esta designações correspondem a Santa Maria do Ocidente e Santa Maria de Aarão em Português moderno.
Lagos: documentado nas fontes Árabes como حلق الزاوية | Ḥalq az-Zāwiya ou مرسى الزاوية | Marsā az-Zāwiya, signif**am “Estuário do Rincão” e “Porto do Rincão”. A palavra زاوية | zāwiya, que em Português geralmente evoluiu para “azóia” também poderá indicar a presença de uma instituição religiosa Sufi, que serve como local de retiro espiritual, culto, ensino e prática de recordação (ذِكر | dihikr) sob a orientação de um mestre Sufi (شيخ | šaykh). No Norte de África e no Ocidente islâmico, funcionavam também como centros de aprendizagem, hospitalidade, caridade e preservação das tradições de uma determinada ordem Sufi.
Aljezur: do Árabe الغزر | al-Ğuzur, que signif**a “abundante” ou “terras férteis de aluvião”.
Silves: registado nas fontes Árabes como شلب | Šilb ou Šalb, também como شلابة | Šalāba.
Sagres: registado nas fontes Árabes como شقرش | Šaqrīš e مرسى شقرش | Marsā Šagriš, “Porto de Sagres”.
Sagres – Terçanabal: muito provavelmente não terá a ver com o mítico Hannibal, deverá vir do Árabe ترسانة البالي | Tārṣana* al-bālī; تار الصنعة البالي | Tār al-ṣanʿa* al-bālī; ambos com signif**ado de “Tercena Velha”. *Corrupção de دار الصناعة | Dār aṣ-ṣināʿa.
Cabo de São Vicente: registado nas fontes Árabes como طرف الغرب | Ṭarf al-Gharb, “Extremo do Ocidente”; طرف العرف | Ṭarf al-ʿArf, Ṭarf al-ʿUrf, “Extremo do Conhecimento”; طرف المنارة | Ṭarf al-Manāra, “Estremo do Farol”.
Sobre Alcácer do Sal:
Cronologia Histórica dos Nomes de Alcácer do Sal durante o Periódo Islâmicio:
1. Durante a Era Provincial (Início do Século VIII) começou por se chamar قصر باجة (Qaṣr Bāǧa) "O Castelo de Beja", esta foi a primeira designação descritiva após a conquista. Por volta de 743–745 d.C., a localidade não era uma capital independente, mas sim uma fortif**ação estratégica subordinada à capital regional Beja.
2. Com o Povoamento Berbere (Finais do Século VIII a meados do Século IX) passou a chamar-se قصر بني ورداسن (Qaṣr Banī Wardāsan) "O Castelo dos Banī Wardāsan". Este nome surgiu com a fixação dos clãs militares Berberes (especif**amente da tribo Masmuda). O registo de Ibn Hawqal preserva esta era de grande autonomia tribal, anterior à centralização do poder pelo Emirato de Córdoba.
Paralelamente ter-se-á chamado قصر السهل (Qaṣr al-Sahl) "O Castelo da Planície": Um descritor geográfico secundário desta época, que realçava as terras baixas e férteis da bacia do rio Sado. Veja-se o topónimo indicado al-Ḥamawī “السهل: بخلاف الصعب: وهو إقليم من أعمال باجة”, que se traduz “al-Sahl: Como o contrário de difícil. É um dos distritos fiscais de Beja”. Em Árabe السهل (al-sahl) signif**a "a planície, sobretudo terra baixa costeira”, também signif**a “‘fácil’, daí a explicação do autor “como o contrário de difícil”.
3. Durante as Incursões Vikings e a Era dos Banū Dānis (844 – 888 d.C.) passa a chamar-se قصر أبي دانس (Qaṣr Abī Dānis) / قصر ابن أدانس (Qaşr Ibn Adānis) / برج أبي دانس (Burǧ Abī Dānis). Em 844 d.C., os devastadores ataques vikings obrigaram o Emirato a fortif**ar fortemente a foz do Sado. Após conflitos internos e uma vitória decisiva sobre rebeldes muladis em 888 d.C., o Emir recompensou o clã árabe local, os Banu Dānis, com o senhorio da cidade. A fortif**ação (Qaṣr), a sua torre de menagem (Burǧ) e a região envolvente foram renomeadas em honra do seu líder, Abu Dānis. Também aparece grafado como قصر بودانيس (Qaṣr Būdānis), trata-se de uma variação fonética ou dialetal Árabe.
4. Fronteira Militar Almóada (Século XII) قصر الفَتْح (Qaṣr al-Fatḥ) "O Castelo da Vitória", um nome de forte pendor ideológico atribuído pelo Califado Almóada. Em 1158 d.C., o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, conquistou temporariamente a vila, mas os Almóadas conseguiram recuperá-la e reconstruíram as suas imponentes muralhas. Para celebrar este grande triunfo militar contra a (re)conquista cristã, batizaram-na oficialmente como Qaṣr al-Fatḥ.
Após a conquista definitiva pelos Cristãos em 1217 d.C., f**a a chamar-se Alcácer do Sal. Não creio que este “Sal” esteja relacionado com a “Salacia” pré-Islâmica, convém destacar que o nome “Salacia” esteve em desuso durante 5 séculos, as fontes Árabes medievais também não registam qualquer قصر الملح (Qaṣr al-Milḥ) na Peninsula Ibérica, ملح (milḥ) signif**a “sal”, o mineral que faz parte das nossas cozinhas. Parece-me mais plausível que Alcácer do Sal venha de قصر السهل (Qaṣr al-Sahl), seria o Alcácer da Planície, a própria definição السهل (al-sahl) "a planície, sobretudo terra baixa costeira” é um excelente descritivo da zona envolvente até aos limites da Península de T***a.